Uganda | Encontro com os gorilas de Bwindi

Em busca do inesquecível encontro com os grandes primatas.

Uganda - 2017

Luciano Candisani

Autor

Luciano Candisani produz reportagens fotográficas sobre biodiversidade, conservação e populações tradicionais para importantes publicações no mundo, como a edição principal da National Geographic.

– Mubare?

Respondi só com um sorriso à pergunta irônica do guia. Ele sabia da minha predileção por essa família de Gorilas, que conheci há dois anos, quando fiz a primeira visita ao Parque Nacional da Floresta Impenetrável de Bwindi, em Uganda. Na ocasião, fotografei os membros desse clã por três dias seguidos. O líder deles, um macho dominante de costas prateadas e com mais de duzentos quilos, me impressionou muito. De fato, ele é o maior dentre todos os gorilas das 13 famílias habituadas à presença de pessoas nas matas de Bwindi. Sua cabeça lembra em forma e tamanho uma jaca. Das grandes. Foi emocionante olhar nos olhos de uma criatura tão colossal em plena floresta. E queria proporcionar a mesma experiência aos meus sete companheiros da nova viagem: fotógrafos entusiastas reunidos ali comigo para conhecer de perto os gorilas e as técnicas de fotografia dentro de florestas tropicais. Meu amigo local já sabia bem disso quando iniciou as explicações de praxe sobre os procedimentos padrão para a aproximação dos animais.

Nossa jornada por Uganda já estava no quinto dia quando chegamos a Bwindi para o ver os gorilas. Nos dias anteriores, visitamos um santuário de rinocerontes e circulamos de jipe e barco pelo parque Nacional Murchison Falls, uma enorme e linda porção de savanas protegidas ao longo do curso do Rio Nilo, na porção Noroeste do país.

Quando o guia terminou sua apresentação a ansiedade de todos pelo início da busca pelos gorilas era quase palpável. Afinal, ficar a poucos metros diante de gorilas das montanhas, na casa deles, não é uma coisa corriqueira para ninguém. Não víamos a hora de partir. E as notícias da mata que chegavam pelo rádio eram muito animadoras. Os “trackers” já estavam próximos de encontrar a família Mubare, a julgar pelos restos de frutos e folhas com mordidas frescas recém encontrados por eles numa encosta.

Nas montanhas de Bwindi estão os últimos grandes remanescentes de mata nas terras altas do leste da África. São milhares de hectares em ótimo estado de conservação, grande parte formado por florestas nunca antes cortadas. Miríades de cipós, samabaias gigantes e folhagens de todas as formas no pé de árvores gigantes formam um cenário de rara exuberância tropical. Lembra os melhores trechos da nossa Mata Atlântica. Andamos cerca de duas horas por entre esse cenário idílico até que o nosso guia deu o sinal: daqui em diante, apenas os fotógrafos e seus equipamentos, estamos muito perto deles. Mochilas e ajudantes ficariam naquele ponto.

Acompanhavam o nosso grupo de fotógrafos onze colaboradores da reserva destacados para ajudar na nossa atividade. Remunerados e bem treinados em suas funções específicas, eles tornam a experiência mais segura e produtiva. É um exemplo de como o turismo ecológico consciente vem sendo ótima ferramenta de conservação da biodiversidade. No caso dos gorilas de Uganda, as visitas geram recursos diretos por meio das taxas de autorização pagas para o parque . São cerca de 400 a 600 dólares por pessoa/dia a depender da época do ano. Os recursos são divididos entre a própria unidade de conservação e as comunidades do seu entorno. Além disso, toda uma rede de hotéis, restaurantes e operadoras de turismo geram empregos bastante qualificados e desenvolvimento regional. Uganda, apesar do passado trágico da ditadura de Idi Amin, encerrada em 1979, e dos enormes desafios sociais que ainda tem, vive um período de paz e esperança em um futuro melhor para sua gente. E o turismo ecológico é um dos grandes trunfos do país nessa jornada virtuosa.

Quando finalmente chegamos aos Gorilas, o silverback foi o primeiro a aparecer. Estava sentado em uma pequena clareira com as suas costas prateadas e sua enorme cabeça bem diante dos nossos olhos. Ele arrancava lentamente as folhas tenras das quais se alimentava. Para mim foi como reencontrar um ente querido. Durante 1 hora permanecemos ali diante da criatura colossal, o líder dos Mubare, o maior dentre os maiores primatas da terra. O silêncio era quase total. Ouvíamos apenas a mata e o disparo das oito câmeras. E sempre que eu tirava os olhos do visor para passar alguma orientação, percebia a expressão de êxtase no rosto de todos. Coisa bonita de se ver.

Luciano Candisani

 

Luciano Candisani produz reportagens fotográficas sobre biodiversidade, conservação e populações tradicionais para importantes publicações no mundo, como a edição principal da National Geographic.

FOTOS DA EXPEDIÇÃO

Fotos: Luciano Candisani. Todos os Direitos Reservados.