Tanzânia | Serengeti, as Planícies sem Fim

Tanzânia, a Grande Migração

Expedição Fotográfica Tanzânia - 2015

Luciano Candisani

Autor

Luciano Candisani produz reportagens fotográficas sobre biodiversidade, conservação e populações tradicionais para importantes publicações no mundo, como a edição principal da National Geographic.

O jipe percorria aos solavancos uma longa estrada de cascalho quando um chamado pelo rádio surpreendeu Gerard, ao volante. Algo naquela mensagem provocara no nosso experiente guia de safari uma reação mais veemente do que de costume. Ele fechou sua janela, mexeu na sintonia do aparelho, regulou o som, levou a cabeça mais a frente na tentativa de ouvir melhor. O conteúdo do relato era inacessível a mim, conhecedor de não mais de 10 palavras em Swahili, um dos idiomas oficiais da Tanzânia. A reação dele, porém, parecia sinal inequívoco da singularidade daquela mensagem frente a maior parte das que ecoavam daquele mesmo rádio, desde a nossa partida da cidade de Arusha, há três dias. Ansioso, também fechei minha janela. Ficamos os dois atentos à voz misturada aos chiados e estampidos de estática do rádio. Gerard passou a fazer perguntas a seu interlocutor, com o transmissor do rádio prensado contra o volante e sua mão esquerda. Eu torcia por uma pausa na conversa para poder aplacar minha curiosidade. Acabávamos de entrar no Parque Nacional do Serengeti, a enorme reserva natural que compreende a maior parte da planície homônima, espalhada pelo norte da Tanzânia e sudoeste do Quênia.

Sentados na parte traseira do Toyota, os participantes da expedição fotográfica seguiam indiferentes ao suspense instalado na frente. Com suas câmeras a postos para uma oportunidade que pudesse surgir a qualquer momento iam absortos na paisagem ao redor: savanas verdes habitadas por miríades de mamíferos emblemáticos, entre eles manadas de antílopes de diferentes espécies, zebras, grupos de leões, girafas e gnus. Tudo iluminado pela luz deslumbrante do final da tarde – a hora mágica, como se diz na fotografia. Um início além das expectativas mais otimistas. O entusiasmo a bordo era quase palpável.

Fotos: Luciano Candisani. Todos os Direitos Reservados.

Fotos: Cristiano Xavier. Todos os Direitos Reservados.

Nenhum outro lugar da Terra concentra tantos animais de grande porte ao alcance da vista. Os gnus – um tipo de antílope – protagonizam o maior espetáculo da região ao empreender migrações em massa. Deslocam-se no encalço das chuvas em busca de capim verde, tenro e nutritivo. Vão em manadas densas, compactas, enormes. Juntas somam cerca de um milhão de animais. Trata-se da maior densidade populacional entre os mamíferos terrestres. Atingiram esse sucesso populacional exatamente por meio desse hábito migratório. Andando, eles fogem das secas e conseguem estar sempre onde as condições de alimentação beiram o ideal. Não passam fome. Nem sede. No passado, eram vítimas de caçadores. Hoje, são principalmente perseguidos por turistas-naturalistas como nós. No lugar das armas de fogo, câmeras. O troféu, agora, é a imagem. Nosso carro, naquela tarde, era um dentre tantos outros levando gente das mais diversas partes do mundo para apreciar o espetáculo natural nas savanas do Serengeti. Com a passagem dos gnus, toda a vida na região se agita, predadores e presas interagem com frequência.

Minha tarefa, ali, era compartilhar com os participantes da viagem uma experiência profissional de dezoito anos na produção de reportagens fotográficas sobre animais para publicações como National Geographic. Sou um contador de histórias da natureza. Faço isso por meio de narrativas visuais. Minha fotografia sempre esteve ligada a esse tema. Na prática, meu conhecimento sobre o tema deveria nos ajudar a decidir o melhor posicionamento diante das oportunidades fotográficas. Por isso, saber logo o conteúdo daquela mensagem do rádio era fundamental para decidir nossos próximos passos. Esse compartilhamento de informações entre os guias de safari pelo rádio explica boa parte do sucesso da avistagem de fauna nas savanas africanas. Quando algo relevante é visto, todos nas proximidades são avisados. Nosso rádio parecia trazer boas notícias.

Gerard finalmente parou de falar, encaixou o transmissor no suporte do painel e virou-se para mim. O sol da tarde, agora ainda mais inclinado, fez brilhar a pele negra do seu rosto. Meu olhar inquisitivo dispensava qualquer pergunta. Ele foi logo dizendo num inglês perfeito: Encontraram um Leopardo numa árvore. E ele começava a insinuar uma descida para caçar. Uma cena rara, bonita, almejada por qualquer fotógrafo de animais, sobretudo sob a luz linda daquele entardecer.

Fotos: Luciano Candisani. Todos os Direitos Reservados.

Antes que eu dissesse qualquer coisa, Gerard acelerou mais o jipe. O bicho não tardaria a descer da árvore, na avaliação dele. Me virei para trás e apoiei com força os braços no encosto do banco, que agora parecia querer se separar do assoalho do jipe ainda mais trepidante na estrada esburacada. Expliquei rapidamente a situação aos demais fotógrafos e sugeri investirmos todo o nosso tempo restante na tentativa de fotografar o leopardo. A cena parecia preciosa demais. A luz também. Era preciso decidir imediatamente. Optar pela minha recomendação significava abrir mão de fotografar os dos demais animais que se sucediam na savana brilhantemente iluminada pelo sol dourado. Houve um momento de hesitação ao passarmos por uma família de leões.

– Estão parados, apenas descansam. O Leopardo vai caçar, teremos ação, argumentei. Minha responsabilidade aumentava a cada oportunidade fotográfica deixada para trás.

Em vinte minutos alcançamos o local. Antes mesmo de Gerard parar o jipe junto aos demais veículos posicionados diante da cena já tinhamos nossas objetivas apontadas para o felino poderoso no alto da acácia. Andava lentamente por um galho com o olhar fixo em algo no chão.

– Ele vai descer, disse Gerard ao guinar o jipe para fora da estrada, próximo aos demais veículos.

O sons das nossas cinco câmeras disparadas simultaneamente faziam lembrar metralhadoras de uma tropa militar. Antes mesmo do motor parar, o animal majestoso correu pelo tronco da árvore e com uma flexão do corpo saltou para a savana, num movimento elegante. Fizemos a foto do salto, mas não deu tempo de checa-la na telinha. Tão logo o bicho tocou o chão, Gerard arrancou com o jipe para um ponto a 300 metros da árvore.

– Ele vem nessa direção, sentenciou nosso guia.

Fotos: Luciano Candisani. Todos os Direitos Reservados.

Esperamos alguns minutos. O sol já estava abaixo do horizonte. A luz era baixa mas suficiente para as nossas câmeras ultra sensíveis, capazes trabalhar com qualidade em asas muito altas. Quando pensei em perguntar a Gerard se ele tinha certeza daquela posição, o capim alto se mexeu a cerca de vinte metros a nossa frente. Era o Leopardo. As rosetas da sua pele apareciam entre a vegetação. Buscava algo. Vira alguma presa por ali. E seus movimentos nervosos e resolutos davam a impressão de que estava prestas a saltar sobre ela. Tudo acontecia atrás do capim, era impossível conseguir qualquer imagem clara. Até que, inesperadamente, surgiu a grande chance: ávido por vasculhar a presença de presas ao redor, o leopardo postou-se de joelhos e esticou o corpo esbelto acima do capim. Os som incessante dos disparos das câmeras dava a medida da raridade do momento.

A noite, no restaurante do Lodge, enquanto erguíamos um brinde a nossa chegada no Serengeti fiz um resumo do nosso dia memorável que terminara há pouco no encontro com Leopardo. Começamos cedinho com num encontro com os Flamingos do Lago Manyara. Almoçamos na paisagem dramática da cratera do Ngorongoro e, logo em seguida, encontramos as grandes manadas de Gnus em migração. No caminho, ainda visitamos uma tribo Maasai. Comemorei, mas disse que dificilmente teríamos outra tarde daquelas .

Os dias seguintes mostraram que eu não poderia ter feito previsão pior, felizmente. Tivemos outras ótimas chances com leopardos. E também com hipopótamos, elefantes, girafas e virtualmente todos os demais animais emblemáticos das Savanas da África oriental. No último dia, quando já achávamos ter visto tudo, um guepardo saltou na frente do carro para pegar uma gazela a poucos metros do jipe. Não houve um dia igual ao outro. As surpresas simplesmente brotavam de trás do capim.

Fotos: Luciano Candisani. Todos os Direiros Reservados.

Num momento em que os espaços naturais do planeta encolhem a uma velocidade sem precedentes na história da humanidade, foi emocionante encontrar, na Tanzânia, exatamente onde nossa espécie surgira, há 200 mil anos, um ambiente em muito ainda original, vasto e, principalmente , em pleno funcionamento. As ameaças existem e não são poucas. Os rinocerontes, caçados intensamente , raramente são vistos. E os elefantes ainda são vítimas do comércio ilegal do marfim. E tem a pobreza de parte da população. Por outro lado, o turismo de observação de fauna gera renda e promove a conservação. E os Maasai, os pastores nômades do Serengeti , encontraram um interessante equilíbrio entre a preservação da suas tradições culturais e as benesses do capitalismo.

Aliás, essa capacidade do pensamento abstrato, que confere ao Homo sapiens a capacidade de conjecturar sobre o futuro ou se encantar com um leopardo sobre uma árvore, também teria evoluído nas planícies do leste da África, há 70 mil anos. É um lugar único.

Fotos: Luciano Candisani. Todos os Direitos Reservados.