Irã | Mistérios e tradições

Uma jornada inesquecível sobre a nossa primeira expedição pelas principais cidades iranianas

Irã - O império Persa - 2017

Cristiano Xavier

Autor

Mineiro de Belo Horizonte, Cristiano Xavier é fotógrafo com grande experiência em fotografia de natureza, paisagens e fotografia noturna. É sócio da OneLapse e coordena a maior parte das expedições da empresa.

Estive no Irã em duas oportunidades. A primeira, em fevereiro de 2016, para uma inspeção, como fazemos sempre na OneLapse. Já a segunda, em 2017, liderando a nossa primeira expedição fotográfica ao destino, com outros entusiastas da fotografia. Conhecer este país era um sonho antigo. Sempre quis aprender um pouco mais sobre sua cultura milenar e ver de perto todas as restrições que fazem do Irã um destino cobiçado por muitos viajantes, especialmente os fotógrafos.

Aventurar-se em um país com costumes tão conservadores, cheio de regras de comportamento diferentes das nossas e com uma frequente crise política externa, deixa qualquer um apreensivo, mas não menos entusiasmado.

Junto aos participantes da nossa expedição, percorremos cerca de 2500km entre as principais cidades históricas do Irã, visitando mercados, mesquitas, jardins, ruínas, vilarejos isolados, etc. Mas sempre com um foco maior em tudo aquilo que era rico para a fotografia e por vezes fora da rota turística convencional, com o objetivo de proporcionar uma verdadeira imersão na cultura local.

Começamos em Teerã, metrópole e capital do país, já nos infiltrando no principal bazar da cidade, que fervilhava em cores e cheiros. Prato cheio para a fotografia de rua. Os mercados iranianos são uma viagem no tempo. Tapetes, temperos e muita arte, tudo em meio a um grande número de pessoas. As cenas se sobrepunham umas as outras, em enorme número de possibilidades fotográficas que nos renderam excelentes imagens num curto período de tempo. Visitamos também a Torre Azadi, local já tradicional para as principais manifestações na cidade.

No dia seguinte, deixamos a capital e adentramos o interior desértico do país. Nosso objetivo era fotografar uma vila encravada nas montanhas. O clima estava frio e a previsão era de neve, o que foi perfeito para nos render cenas belíssimas e raras de se ver. Ali também pudemos entrar em contato próximo com as pessoas mais simples e acompanhar de perto seu modo de vida.

Partimos rumo sul com destino a Isfahan, uma das antigas capitais do país, e suas incríveis mesquitas de arquitetura bem detalhada e colorida, remetendo as dinastias antigas. Em Isfahan, nos encontramos com duas jovens muçulmanas que havíamos conhecido na visita anterior, que junto com sua mãe e uma amiga nos acompanharam durante dois dias na cidade. Foi fantástico ter um contato mais próximo com elas, o que nos favoreceu muito na composição das imagens, retratos que mesclavam a religião, os costumes (principalmente o modo de se vestir) e a maravilhosa arquitetura local. Tiramos algumas dúvidas sobre a cultura, regras do Islã, o que se pode e o que não se pode fazer e também as fotografamos livremente nos mais belos cenários da cidade, que é a terceira maior do Irã.

Após Isfahan, nos dirigimos a Shiraz. Apesar das regras do islã ditarem a forma de viver das pessoas, fica evidente que os mais jovens já não concordam tanto com os costumes impostos. Algumas mulheres mais novas, por exemplo, já deixam parte do cabelo à mostra e usam muita maquiagem, duas coisas que são teoricamente proibidas por lá. Em Shiraz , cidade mais liberal e repleta de artistas, pode-se observar mais frequentemente este comportamento.

Uma das cenas mais emblemáticas de Shiraz é a projeção de luz através dos vitrais da mesquita de Nasir-ol-Molk. Acordamos bem cedo e chegamos na hora certa para captar lindas fotos deste acontecimento. Não menos incrível foi nosso final de tarde na mesquita de Shah-e-Cheragh. Havia chovido muito nos últimos dois dias, mas nessa tarde o tempo começou a limpar, nos presenteando com uma luz mágica refletida pelo piso ainda molhado da gigantesca área central da mesquita. Chegamos no momento certo de balancear a luz do dia com as luzes já acesas e todos do grupo ficaram impressionados com a imponência do lugar, que é um dos mais sagrados no país e muito difícil de visitar como turistas.

Em seguida, foi a vez de conhecermos a cidade de Yazd, famosa pelos doces tradicionais. Yazd está no meio do deserto, é uma das cidades mais quentes e secas do Irã – o que levou ao desenvolvimento das torres que captam o vento canalizando-o para o interior da residência, e que funcionam como um ar condicionado natural. Seu centro histórico feito de barro, suas ruas estreitas e a luz contrastada do deserto nos deram excelentes composições fotográficas.

De Yazd, fomos a Kashan, mas antes fizemos uma parada na pequenina Nain, onde tivemos um momento muito especial almoçando na casa de uma senhora que também havíamos conhecido na primeira viagem. Lá, acompanhamos o feitio do tradicional pão no forno a lenha e as mulheres foram convidadas a ajudar na cozinha. Também muito rico ver de perto o processo de confecção dos famosos tapetes persas, que esta senhora faz há 40 anos. Junto a sua família e amigos, jantamos todos juntos numa noite inesquecível.

Selecionar hotéis com arquitetura tradicional também contribui muito para uma experiência mais rica. Assim aconteceu em Kashan, onde visitamos sua linda mesquita e mercado, antes de pegarmos a estrada de volta a Teerã, encerrando a nossa jornada por terras persas.

Sobre o povo do Irã, observamos que as pessoas são simpáticas, hospitaleiras e muito curiosas. Perguntam tudo aos turistas e sempre estão dispostas a ajudar. Quando comparadas ao Brasil, as diferenças de costumes são enormes. A questão religiosa também me pareceu ser bem relativa. Os iranianos vivem muito bem, muitos deles gostam de seguir as regras e acreditam fielmente que isto é o mais correto a se fazer.

O ambiente é tão tranquilo e seguro, que nem lembramos daquele receio com que a maioria embarcou no Brasil. Me lembrou muito o que Amyr Klink escreve no livro Mar Sem Fim: “Um homem precisa viajar para lugares que não conhece, para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos e não simplesmente como ele é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”

Cristiano Xavier

 

FOTOS DA EXPEDIÇÃO

Fotos: Cristiano Xavier  – Todos os Direitos Reservados.