EUA | Caçadores de Tempestades

Expedição ao Corredor dos Tornados - 2016

Cristiano Xavier

Autor

Mineiro de Belo Horizonte, Cristiano Xavier é fotógrafo com grande experiência em fotografia de natureza, paisagens e fotografia noturna. É sócio da OneLapse e coordena a maior parte das expedições da empresa.

Um ano após uma grande aventura em busca das tempestades e tornados pelo interior dos Estados Unidos, retornei ao Tornado Alley com um grupo de fotógrafos para a nossa expedição fotográfica e aventura inigualável.

O corredor dos tornados localiza-se no meio oeste americano e se estende de norte a sul abrangendo principalmente os estados de Dakota do Norte, Dakota do Sul, Wyoming, Colorado, Nebraska, Kansas, Oklahoma e Texas. Esta abundância de tornados só é possível porque nesta região ocorre o encontro de massas de ar frio vindas do Canadá e de ar quente e úmido vindas do Golfo do México, gerando grande instabilidade e consequentemente funcionando como uma maternidade de gigantescas tempestades. Nosso objetivo era seguir as tempestades e fotografar o espetáculo das super-células que poderiam ou não gerar tornados.

Desembarcamos em Denver, no Colorado, para encontrar a equipe local que nos acompanharia durante esta intensa jornada. Neste momento, apesar de não saber exatamente como seria a aventura (somos guiados pela meteorologia), eu tinha certeza de que estava prestes a vivenciar mais uma experiência inesquecível.

Nossa rotina diária era acordar, tomar café e nos reunir para analisar os modelos climáticos e traçar nossa rota em direção as tempestades. Era uma oportunidade riquíssima de aprender melhor sobre como interpretar as imagens de radar e de satélite, além de saber como as camadas da atmosfera, direção e velocidade dos ventos, temperatura e o relevo influenciam na geração dos tornados. No primeiro dia, de acordo com as previsões, definimos seguir rumo ao estado de Nebraska. Estava iniciada a caçada.

Nossa saída começava por volta das 11:00h, e na maioria dos dias o céu estava limpo com o calor muito intenso, bons sinais para a formação das tempestades, pois a alta temperatura gera o lift necessário para o crescimento vertical das grandes cúmulo-nimbus. Por volta de 15:00h, as áreas de instabilidade começam a pipocar no radar e cabe aos experientes meteorologistas decidirem qual das tempestades tem maior potencial para o que estamos atrás e a partir daí começamos a seguí-la. Na medida em que as oportunidades de boas fotos aconteciam, parávamos o carro por 10 a 15 minutos para captar as imagens e continuávamos seguindo as super-células. São cenas únicas que acontecem com grande frequência somente nesta região especifica dos EUA.

Como a rota é imprevisível, não sabíamos exatamente onde estaríamos no final do dia e a decisão de onde passar a noite era tomada sempre na última hora. Isso se tornou um dos pontos mais interessantes da viagem, pois nos proporcionava a verdadeira vivência e descoberta de pitorescos lugares no interior rural dos EUA, muitas vezes cidades muito pequenas de até 250 habitantes. Atravessamos os estados do Colorado, Kansas, Nebraska, Wyoming e Oklahoma conhecendo a vida no campo, conversando com os personagens típicos, experimentando a comida caipira, tomando uma cerveja local e jogando sinuca ao som da música Country, muitas vezes no único bar de uma pequena cidade. Um programa bem diferente do tradicional turismo do eixo Las Vegas – Miami – Nova Iorque.

O dados fornecidos pelo radar e atualizados a curto prazo são muito precisos, e aliados ao mapa rodoviário nos direciona ao encontro das tempestades. Se necessário, traça também nossa rota de fuga. Além destes dados temos a observação in loco dos fenômenos. Quando paramos o carro e descemos, procuramos observar a direção e a temperatura do vento. Vento quente sendo sugado em direção a super-célula denomina-se inflow e é um indício de que a tempestade está crescendo e acumulando energia, um ótimo sinal para a geração de lindas formações no céu. Já o vento frio, soprando a partir da super-célula – o outflow – significa que a grande torre de nuvens está perdendo energia e se desfazendo em chuva. Quando acertamos na escolha, nos deparamos com a incrível visão da parte frontal da super-célula, um disco de nuvens que dispara relâmpagos incessantemente e se contorce em espiral lembrando cenas do filme Armagedon. Nesse momento, a adrenalina já está a mil e nossos olhos atentos a qualquer funil que toque o solo, sempre sob orientação da nossa equipe. Quando é hora de partir, a ordem é entrar no carro imediatamente e nos afastar até um ponto alguns quilômetros a frente onde paramos novamente para algumas fotos, sempre acompanhando a grande formação. Em questão de minutos, o formato da super-célula muda constantemente com desenhos estranhos como as mammatus clouds, compondo uma série de bolhas em um lindo espetáculo. Para a fotografia é algo riquíssimo e ao final do dia, com a luz do por do sol, o céu se torna uma pintura surrealista.

Foram 6 dias inteiros de uma overdose visual intensa e constante. Com toda a minha experiência em expedições, me arrisco a dizer que a caça as tempestades é de longe a mais rica em oportunidades fotográficas, e graças a experiência da equipe em nos colocar nos lugares certos e seguros, pudemos registrar cenas fantásticas que mesclam a fúria e a beleza da natureza.

Cristiano Xavier

 

FOTOS DA EXPEDIÇÃO

Fotos: Cristiano Xavier  – Todos os Direitos Reservados.